segunda-feira, 1 de julho de 2013

VAMOS ARRUMAR OS CALHAMBEQUES...




Chegamos ao fim das nossas viagens. Algum dia tinha de ser...
Gosto de calhambeques, têm mais beleza e encanto do que os topo de gama actuais. Eles aqui estão, , estacionados nas traseiras do jardim, metáfora das nossas viagens por caminhos esquecidos.

Faltam as fotos da nossa última viagem. Aqui ficam, com o meu agradecimento ao amigo Lourenço Luís que as fez. E bem, como sempre!

Vem-nos por aí. Quem sabe, em novas viagens...











terça-feira, 11 de junho de 2013

BELA PRENDA !


Na última sessão deste ano lectivo os companheiros de viagem trouxeram-me este livro.
Já o tinha folheado nas livrarias mas... como não se pode comprar tudo o que apetece, deixei-o lá. Podia ser que numa feira do livro... numa promoção...

Bela prenda, portanto, que recebi de coração alegre e grato, como recordação de 25 sessões em que viajámos pelos livros na companhia de vários autores.
Esta obra de JLPeixoto vem ao encontro da nossa curiosidade acerca de um país rodeado por uma cortina de ferro de isolamento político. Far-me-á companhia durante alguns dias e será fonte de prazer pois conheço a qualidade da escrita do seu autor.
Obrigado companheiros de viagem.

IMAGENS DO QUOTIDIANO DA AUTITV - Associação para a Universidade da Terceira Idade de Torres Vedras






Hoje, no Auditório Municipal da Av. 5 de Outubro.
É uma retrospectiva do trabalho realizado ao longo do ano.
Faremos a apresentação das nossas "VIAGENS" às 11H50

terça-feira, 4 de junho de 2013

VIAGENS DE ANTÓNIO TABUCCHI







Chegou-me hoje às mãos um livro de Tabucchi sobre as suas viagens

Este italiano apaixonou-se por Portugal e essa paixão teve várias faces: Fernando Pessoa e a mulher portuguesa com quem partilhou a vida.
Ver AQUI.





Vou embarcar e já sei que vou fazer boa viagem.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

ÚLTIMA SESSÃO DESTE ANO LECTIVO



Em jeito de conclusão foi feita referência às apreciações escritas dos viajantes na sessão anterior.
Foram positivas e sublinharam a validade do trabalho realizado.

Pela minha parte fiz uma breve avaliação e deixei perguntas, como se pode ver neste quadro retirado do P Point apresentado:



Os viajantes pretendem continuar para o próximo ano. Pela minha parte, também estou motivado a prosseguir.
Embora se mantenha a ideia de viajar nas palavras, o fio condutor não será o dos "livros de viagem". Teremos de optar por outro. Proponho:

 ESCRITORES E LUGARES: abordagem centrada na relação do escritor com um lugar.

          Bocage e Setúbal
          Camilo C. Branco, o Porto e o Minho
          José Régio e Portalegre
          Miguel Torga e Trás-os-Montes
          Alves Redol e o Ribatejo
          Florbela Espanca e o Alentejo
          Camilo Pessanha e Macau
       
São 7 autores. Cada um será estudado em 3 sessões, o que dá um total de 21. Restam 3 ou 4 sessões para outros temas casuais, pois o total andará à volta das 25.

Sendo certo que na AUTITV (a nossa associação senior) há o saudável costume de completar os temas estudados com visitas aos lugares relacionados com eles, proponho que, em data a definir, seja feita uma visita à CASA DE CAMILO, em  S. Miguel de Ceide (Vila Nova de Famalicão)
.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

DIREITOS E DEVERES DO LEITOR



Foi Daniel Pennac, num livro que teve enorme êxito - COMO UM ROMANCE - quem definiu estes direitos, que ele adjectivou de "inalienáveis":


1 - O direito de não ler

2 - O direito de saltar páginas

3 - O direito de não acabar um livro

4 - O direito de reler

5 - O direito de ler não importa o quê

6 - O direito de amar os "heróis" dos romances

7 - O direito de ler não importa onde

8 - O direito de saltar de livro em livro

9 - O direito de ler em voz alta

10 - O direito de não falar do que se leu


Respeitemos, então, esses direitos mas sem esquecer os deveres:

Os Deveres do Leitor

1.   O dever de tratar com cuidado todos os livros.
2.   O dever de ler com uma postura ativa e crítica perante o que lê.
3.   O dever de ler uma grande variedade de livros, desde a ficção à não-ficção.
4.   O dever de promover a leitura nos mais diversos suportes, em todo o lado, com toda a gente.
5.   O dever de frequentar bibliotecas.
6.   O dever de requisitar, oferecer e emprestar livros.
7.   O dever de divulgar todas os sites e projetos que promovam a gratuitidade e fácil acessibilidade da 
      leitura on-line.
8.   O dever de se cultivar para melhor apreender os significados da mensagem escrita. 
9.   O dever de se defrontar com livros de crescente complexidade.
10. O dever de defender a liberdade de opinião e de expressão
.

"Deveres" retirados daqui:
http://kispoonline.blogspot.pt/2011/02/os-deveres-do-leitor.html

Nota: COMO UM ROMANCE, Daniel Pennac, 1ª ed. em França 1992, 1ª tradução em Portugal em 1993, edição ASA Editores



domingo, 26 de maio de 2013

DAR CONTA E DESAFIAR


23ª SESSÃO                                                                                                           23 MAIO 2013



Gravura inserta no livro A FORMOSA LUSITÂNIA




Muito sucintamente: nesta sessão foi apresentado o livro A FORMOSA LUSITÂNIA e lidos alguns excertos.

Naturalmente, fez-se a contextualização da obra no tempo político português em que que foi escrita: o período da Regeneração, a partir de 1851, caracterizado pela acalmia política e abrandamento da conflitualidade que tivera o auge nos anos 1832/34 com a Guerra Civil.

Referiu-se  também o Fontismo, a propósito do ano de 1873, em que a autora visitou Portugal. Desde 1871 que Fontes Pereira de Melo chefiava o Governo e iniciara um ambicioso programa de obras públicas.

A parte final da sessão foi ocupada com a resposta a um pequeno questionário destinado a avaliar o que se fez ao longo do ano e o eventual interesse em continuar no próximo ano.

No final, pedi que a última sessão, que será no próximo dia 30 de Maio, seja ocupada pelos participantes com a apresentação de um livro à escolha de cada um, referindo a razão da escolha e transmitindo o que acham de interessante nesse livro.

Aqui fica o desafio: tragam um livro de que gostem muito e expliquem a razão desse gosto.

E não se esqueçam da inscrição no Passeio / visita a Ìlhavo, que será em 18 de Junho.

Obrigado.

terça-feira, 21 de maio de 2013

UM FORMOSO LIVRO







Nos séculos XVIII e XIX Portugal foi destino turístico muito procurado pelos europeus em geral e ingleses em particular. O fausto da corte de D. João V e o terrível terramoto de 1755 atraíram os viajantes de Setecentos; os ecos da Guerra Peninsular bem como as crescentes facilidades de transportes trouxeram os turistas de Oitocentos. Para os ingleses acrescia a prosápia de se sentirem senhores em protectorado político e económico - daí os seus relatos não raro caluniosos e eivados de preconceito para com os bárbaros do sul. 





Ao contrário dos escritos da maioria dos ingleses que andaram por Portugal e que cederam ao erro tão comum de generalizar a toda a população uma impressão particular ou um acontecimento fortuito, o livro de Lady Jackson A FORMOSA LUSITÂNIA é um relato curiosíssimo de alguém que soube respeitar o país que visitou e que o olhou com sensibilidade e abertura de espírito. Sem deixar de ser crítica, soube enquadrar o que observou nas contingências de um país sem recursos e que mal saíra de um longo período de conflitos – a Guerra Peninsular e a Guerra Civil. Foi seu propósito expresso “combater a arrogante, desdenhosa e ignorante opinião que os ingleses tinham de Portugal como um país atrasado, retrógrado, inculto.”
Um dos aspectos mais atraentes da edição portuguesa, publicada em 1878, três anos depois da primeira edição em Inglaterra, é a tradução da autoria de Camilo Castelo Branco. O grande prosador censura alguns deslizes e excentricidades da autora, em notas bem-humoradas, por vezes no seu jeito sarcástico, mas reconhece e enaltece a validade e interesse da obra. A edição de que nos servimos, de 2007, respeita integralmente a primeira, incluindo as 21 gravuras da época, de que reproduzimos a que representa o Cais do Sodré naquela época


Para os interessados: A FORMOSA LUSITÂNIA – Portugal em 1873, Catherine Charlotte Jackson; tradução e notas de Camilo Castelo Branco, edição Caleidoscópio, Casal de Cambra, 2007



Texto da contra-capa: 

Em Julho de 1873, proveniente de Londres, desembarcava em Lisboa a inglesa Lady Jackson. Demorar-se-ia por Portugal até Outubro do mesmo ano e, ao partir, não foi sem saudades profundas que disse adeus à Formosa Lusitânia. De volta a Inglaterra publica, logo no ano seguinte, Fair Lusitânia, que, apenas três anos volvidos, mereceu tradução de um dos maiores vultos das letras portuguesas oitocentistas, Camilo Castelo Branco, um conhecedor das narrativas produzidas por viajantes estrangeiros em Portugal. Na Advertência e nas deliciosas notas que acompanham a sua tradução, Camilo, reconhecendo embora que se trata de "um livro digno e honrado", não deixa de criticar, corrigir e comentar os erros, "inexactidões" e "excentricidades" contidos na obra, muitas vezes com ironia e sarcasmo. Curiosamente, tendo tido acesso à tradução portuguesa do seu relato, Lady Jackson defendeu-se das críticas maliciosas de Camilo em carta dirigida ao romancista, com data de 19 de Janeiro de 1879, e que aqui se publica pela primeira vez. A história da literatura de viagens sobre Portugal de autoria britânica também se conta no feminino. Acompanhemos, pois, o olhar que Lady Jackson lançou sobre a realidade portuguesa no reinado de D. Luís, o relato das experiências que viveu e das recordações que guardou - porque toda a escrita de viagem resulta, ao mesmo tempo, de uma viagem no espaço geográfico e de uma viagem pela memória.  



quarta-feira, 15 de maio de 2013

22ª SESSÃO - VIAJANTES ESTRANGEIROS EM PORTUGAL







Podemos ver AQUI o apontamento que registámos neste blogue em 6 de Maio.

Servirá de introdução à leitura de excertos da obra de Carl Ruders que faremos na sessão de amanhã, a 22ª.

Nela faremos também referência a outras obras que relatam viagens de estrangeiros em Portugal e qual o seu interesse para o estudo do passado.
Há uns anos eram vistas com grande desconfiança mas hoje parece haver um lugar próprio para elas, devido sobretudo ao estabelecimento de critérios mais rigorosos de leitura, acompanhados do cruzamento das suas informações com as de outras fontes.
As impressões de viagem são, por natureza, carregadas de subjectividade e revelam mais sobre os autores do que sobre a realidade que descrevem. Por isso a abordagem destas obras tende actualmente a relativizar os juízos de valor e as apreciações pessoais e a focar-se sobre aspectos da vida quotidiana que as fontes primárias tradicionais não raro descuram.
Vistas a esta luz, os relatos dos viajantes estrangeiros em Portugal são muitas vezes apaixonantes pois nos arrastam para dentro da vida dos contemporâneos com quem privaram e que nos surgem plenos de vida em toda a sua humanidade.

sábado, 11 de maio de 2013

A NÃO PERDER

Está já marcada a palestra de que falámos há tempos atrás, na sessão de 4 de Abril:



21ª SESSÃO - A CAMPANHA DO ARGUS


Na 21ª sessão, em 9 de Maio, abordámos a obra de Alan Villiers, A CAMPANHA DO ARGUS, como preparação para a visita de estudo que será em 18 de Junho próximo.
Vejamos algumas das imagens do power point dessa sessão:



Percurso da visita guiada ao Museu Marítimo de Ílhavo e Navio-Museu Santo André:



Navio bacalhoeiro Santo André, fundeado na Gafanha da Nazaré


Interior do Museu Marítimo






A obra de Alan Villiers:

Alan Villiers





Algumas fotos de Alan Villiers, doadas ao Museu de Ílhavo:














quarta-feira, 8 de maio de 2013

PEQUENA ALTERAÇÃO

Antes de abordarmos os relatos de viagens de estrangeiros a Portugal nos séc. XVIII e XIX, ainda teremos uma sessão sobre a saga dos bacalhoeiros portugueses. Será uma forma de prepararmos a visita guiada ao Museu Marítimo de Ílhavo.
A sessão centrar-se-á na história do navio ARGUS

A CAMPANHA DO ARGUS




O navio ARGUS é o mais conhecido navio da frota bacalhoeira portuguesa, a célebre "white fleet".
Ficou conhecido mundialmente pela relato de Alan Villiers publicado em 1951 com o título A CAMPANHA DO ARGUS. A. Villiers, repórter australiano da National Geographic, aventureiro e comandante de navios, foi convidado pelo governo português para fazer a reportagem de uma campanha de bacalhau nos bancos da Terra Nova. Embarcou no ARGUS e fez aquele que é hoje o mais completo testemunho da pesca baseada em navios veleiros e dóris - pequenas embarcações tripuladas por um só pescador. Villiers tirou inúmeras fotografias de grande qualidade, escreveu um livro e fez um filme documentário.

O ARGUS continuou a faina até aos anos 70 do séc. XX, altura em que foi vendido e transformado em navio de cruzeiros nas Caraíbas, com o nome POLYNÉSIA II. Em 2007, por problemas financeiros do proprietário, o navio é ancorado em ARUBA, próximo da costa venezuelana e entra em grande degradação. Os leilões de 2008 não têm sucesso.
Em 2009 a empresa Pascoal & Filhos adquire-o em leilão e trá-lo de reboque para Aveiro com a ideia de o recuperar. É isso que é explicado por Aníbal Paião, sócio da Pascoal e sobrinho de um dos últimos capitães do ARGUS, nesta reportagem:

http://www.publico.pt/multimedia/video/pode-um-navio-contar-a-historia-da-pesca-do-bacalhau-20121204-120237

Na próxima sessão de VIAGENS COM PALAVRAS, em 8 de Maio, falaremos na história do ARGUS e leremos passagens do livro de Alan Villiers, A CAMPANHA DO ARGUS.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

UM SUECO EM LISBOA



O sueco Carl Israel Ruders foi capelão da Embaixada da Suécia em Lisboa entre 1898 e 1802. Durante a sua estada em Portugal, escreveu algumas dezenas de cartas para os amigos da pátria distante, respondendo assim ao pedido que eles lhe haviam feito para que fosse dando conta do que via por cá. 
Regressado à Suécia, perante o sucesso das cartas que circulavam entre amigos e curiosos, resolveu editá-las em livro, que logo seriam traduzidas para alemão. O diplomata e escritor António Feijó (1859 - 1917, que foi embaixador na Suécia) traduziu grande parte da obra do alemão para a nossa língua e publicou-a no Diário de Notícias . A Biblioteca Nacional viria a editar essa tradução em 1981. Na segunda edição de 2002, saiu um segundo vol. que inclui as partes que A. Feijó havia omitido, possivelmente por razões de espaço no jornal.

A obra de Ruders é considerada um dos melhores e mais fidedignos testemunhos escritos por estrangeiros nas suas viagens a Portugal, ao contrário de outros relatos manchados pela falta de rigor, pelo preconceito ou por generalizações abusivas.

Podemos ler a seguir a transcrição de uma das cartas em que Ruders, um grande apreciador de Ópera, se refere aos espectáculos que viu em Lisboa.

(clicar na imagem para ver todo o texto):



AQUI podem ler-se as primeiras 89 pág. do livro.
De salientar que até à pág. 24 poder ler-se o notável prefácio de Castelo Branco Chaves sobre os relatos de viajantes estrangeiros em Portugal e sobre a obra de Ruders.



quinta-feira, 2 de maio de 2013

LISBOA DO SÉC- XVIII


Nas próximas aulas abordaremos textos de estrangeiros que viajaram em Portugal nos séc. XVIII e XIX. A imagem inspiradora é esta gravura de Lisboa no séc. XVIII.

domingo, 28 de abril de 2013






   Era como uma vaga de mar bravo, sô doutor. Grande e forte,  a mal ninguém o levava! Estava sempre pelo lado do dirêto, da justiça. Por bem, 'té a uma criancinha ele respêtava. Mas por mal quando tinha rezão...

         Foi ali. Ali, naquele mar azul-cinza, é que ele desapareceu para sempre. Era o melhor pescador à linha da frota bacalhoeira portuguesa.
         Naquela manhã, tal como nas outras, saíra com o seu barquito, o seu «dóri», para a pesca individual... Ele e os compa­nheiros. Mas estes, enquanto a tarde caía, com mais ou menos bacalhau, lá foram voltando ao navio, uns após os outros, Ele não. Nunca mais: Talvez a névoa cerrada... Talvez a canoa viesse demasiadamente cheia: se ele era o primeiro, entre os pesca­dores!... Talvez... talvez...      
        Lá ficou. Para sempre.
        Sozinho, naquele mar sem fim!!
       Ninguém viu o terror do seu último olhar. Ninguém ouviu os seus gritos, as suas súplicas...
       Era jovem, forte, generoso!...

   Foi ali mesmo naquele ma!

      E tu, Oceano, não o dizes, não o gritas! não estás marcado, mar!? Nem uma cicatriz indelével, feita com as sombras da noite mais negra, nem uma coluna eterna de sal... Nada.
Liso, calmo, como sempre cinzento-azulado...: Ah, mar, tenho-te medo e raiva!
Quem? Quem este ano?!...

Nos Mares do Fim do Mundo
Bernardo Santareno

terça-feira, 23 de abril de 2013

NÃO VOLTES, JOÃO! NÃO VOLTES!







Na sessão do dia 18 de Abril lemos várias passagens do livro de Bernardo Santareno "NOS MARES DO FIM DO MUNDO".
Aqui fica um desses textos, bem expressivo do estilo do autor:


CHAMADA DE URGÊNCIA

Foi no «Bissaia Barreto». Mensagem angustiosa do capitão, pela telefonia: Um homem de convés ferido, com uma faca de escalar. Golpe fundo, hemorragia abundante.
Imediatamente, os dois navios, o «Bissaia» e o «Melgueiro», recolheram as redes e largaram ao encontro um do outro, com a rapidez possível. Num instante, eu e o enfermeiro nos apron­támos. Quanto a mim, ansioso, mesmo aflito: Qual a gravidade autêntica do caso? Poderia resolver?...
Uma vez convenientemente aproximados os dois barcos, era ainda necessário percorrer, num pequeno bote, o mar que os separava: ondas altas, mas ainda não verdadeiramente perigosas. Neve caindo sempre, cada vez mais cerrada. Gelo disperso pelo mar, em pequenos blocos.
Lá fomos. Escuros de névoa, o céu, o mar e o ar; escura tam­bém a minha alma, de apreensão.
Mal chegado, levaram-me logo para uma minúscula enfer­maria: a minha ansiedade crescia, dolorosa. No beliche único, um homem novo estendido. Sangue nas roupas do ferido, nas cobertas da cama, até no chão. Observei o golpe: a faca passara entre as costelas, um pouco abaixo da ponta do coração. Hemo-pneumotórax? Pela auscultação, pareceu-me que sim.
Então, fixei profundamente o doente: cerca de vinte anos, pálido de anemia e de angústia, dois olhos grandes límpidos e macerados, finos os lábios convulsivamente apertados...
Tentativa de suicídio, é claro.
Na carne branco-azulínea do peito estreito, logo abaixo do coração, aquela flor de fogo tinha qualquer coisa de marca sagra­da, de mutilação ritual: marca de inadaptados, frágeis, solitários e desesperados.
Mandei esterilizar o material, para fazer a sutura da ferida: O rapaz, assustado, seguia-me com a vista... Por fim, o receio quebrou-lhe o mutismo:
Vai coser?...
Sosseguei-o: não sentiria nada. Pobre mocito! Impossível não o acarinhar: era uma criança! E as pestanas enormes lutavam para reter a paixão das suas lágrimas...
Soube que, frequentemente, sucumbia a ataques espasmódi­cos, durante os quais perdia os sentidos: epiléptico? Agora, um sentimento dominava toda a sintomatologia: um medo patológi­co, um entranhado terror, contra o mar e principalmente contra o seu navio. Um só desejo, este frenético: voltar para terra.
Dentro de meia hora, um outro barco, o «Pádua», partia para reabastecimento em St. John's:
Queres ir no «Pádua»?...
Os olhos do rapaz encheram-se-lhe de aleluias...
Suturado o ferimento, preparei-o para a viagem com coa­gulantes e analépticos. Chamava-se João. E foi para St. Johns, vi-o eu partir! Com uma delicadeza esquisita, os companheiros levaram-no em braços até ao bote, que havia de o conduzir ao outro navio: o rosto de cera, cinzentos os lábios, nos olhos febris uma ânsia obstinada, às vezes um pavor gelado...
Adeus, João! Voltarei a encontrar-te? Que será de ti?... Pronto, ei-lo chegado ao «Pádua»... Agora, içam o bote ... Ainda o vejo muito bem: na cabeça, um carapuço infantil, dos que têm borla no alto... Adeus! Boa sorte, rapazinho!
Vejam com que alma ele cravou a faca no peito!: Um moço tão jovem, tão grácil, quase belo?!... Que Nossa Senhora te acompanhe, João! E não voltes! Não voltes! Não voltes!!
O mar não gosta de ti, meu filho: Ele só quer aqueles que o dominam; e tu não podes. Não voltes para o mar: esconde-te na noite fresca que nasce da sombra das árvores, mistura a tua carne com a terra generosa e firme, deixa-te perder nos ares com o perfume da hortelã, dos cravos e das laranjeiras em flor...
Não, não queiras voltar. E vai com Deus, João!
*

Quando regressámos ao «David Melgueiro», o mar estava mais bravo, a neve fustigava-nos com mais raiva, e a noite des­cia rápida. Riscando a cinza negra deste mundo desolado, cor­tando céu e mar, um traço rubro, indelével e sangrento: uma ferida de Sol-poente, nesta paisagem vítrea...

 in: NOS MARES DO FIM DO MUNDO, B. Santareno, Edições Ática, Lisboa, 1999.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

COM BERNARDO SANTARENO "NOS MARES DO FIM DO MUNDO"


20ª SESSÃO                                                                                                        18 ABRIL 2013


 







Os velhos marinheiros dos Descobrimentos portugueses deram lugar, no final do séc. XIX e até meados do séc. XX, aos intrépidos pescadores da Terra Nova. O que foi essa saga imensa, sofrida, muitas vezes trágica, ficou plasmado nas páginas de Bernardo Santareno, que foi médico assistente da frota bacalhoeira. Ele o diz na "Nota de abertura" do seu livro:







«Nota — Nos Mares do Fim do Mundo foi, em grande parte, escrito a bordo do arrastão «David Melgueiro», na primeira cam­panha de 1957, a primeira também em que eu servi na frota bacalhoeira portuguesa, como médico. Mas depois desta, tomei parte numa segunda, em 1958, agora a bordo do «Senhora do Mar» e do navio-hospital «Gil Eannes», em que assisti sobretudo aos barcos de pesca à linha: Assim pude de facto conhecer, por vezes intimamente, todos os aspectos da vida dos pescadores bacalhoeiros portugueses, em mares da Terra Nova e da Gronelândia, e comple­tar este livro.»

Neste blogue encontrei notícias e fotos muito interessantes e elucidativas sobre a pesca do bacalhau.. Ver AQUI:http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2010/06/pesca-do-bacalhau_08.html

quarta-feira, 10 de abril de 2013

"NÓS SOMOS AHAB"


19ª SESSÃO                                                                                                   11 ABRIL 2013





1. Leitura do texto de Harold Bloom "Nós somos Ahab" (ver na PÁG. 3 deste blogue)

2. LEITURA DE EXCERTOS DO LIVRO MOBY DICK

    Diz H. Bloom: "Por mais extensa que seja, a obra está contida na dialéctica destes três capítulos:
42, 119 e 132.

Cap. 42: "A brancura da baleia" (pg. 223, ed. Relógio d'Água). Ismael, personagem e narrador, faz uma dissertação sobre o significado da brancura no na nossa cultura. e no nosso imaginário.

Cap. 119: "As velas" (pg. 535). "Tomamos pleno conhecimento da espiritualidade de Ahab" (H. Bloom)

Cap. 132: "A sinfonia" (pg. 577). "O lado humano de Ahab" (id)

* * *







Gregory Peck (1916-2003) foi o Capitão Ahab de MOBY DICK, realizado por John Huston em 1956.










Versão em DVD (2006) da adaptação de Francis Ford Coppola.