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quarta-feira, 10 de abril de 2013

"NÓS SOMOS AHAB"


19ª SESSÃO                                                                                                   11 ABRIL 2013





1. Leitura do texto de Harold Bloom "Nós somos Ahab" (ver na PÁG. 3 deste blogue)

2. LEITURA DE EXCERTOS DO LIVRO MOBY DICK

    Diz H. Bloom: "Por mais extensa que seja, a obra está contida na dialéctica destes três capítulos:
42, 119 e 132.

Cap. 42: "A brancura da baleia" (pg. 223, ed. Relógio d'Água). Ismael, personagem e narrador, faz uma dissertação sobre o significado da brancura no na nossa cultura. e no nosso imaginário.

Cap. 119: "As velas" (pg. 535). "Tomamos pleno conhecimento da espiritualidade de Ahab" (H. Bloom)

Cap. 132: "A sinfonia" (pg. 577). "O lado humano de Ahab" (id)

* * *







Gregory Peck (1916-2003) foi o Capitão Ahab de MOBY DICK, realizado por John Huston em 1956.










Versão em DVD (2006) da adaptação de Francis Ford Coppola.

domingo, 31 de março de 2013

UM GRANDE CLÁSSICO DA LITERATURA UNIVERSAL

MOBY DICK




Dizer que se trata de uma história de caça à baleia em que o capitão Ahab procura vingar-se de um primeiro encontro com o monstro que lhe arrancara uma perna é demasiado simplista. Este livro, como todas as grande obras, tem uma multiplicidade assombrosa de leituras.
Harold Bloom, conhecido crítico literário americano, tem grande paixão por este livro que considera a epopeia da América. "Moby Dick é o paradigma ficcional do sublime americano" - escreve no seu "Como ler e porquê", (Ed. Caminho, 2001).

O capitão Ahab é o herói-vilão trágico que arrasta para a morte a tripulação do seu navio, o Pequod. Mas ela, se o pressente, não recua, porque a morte é apenas uma possibilidade remota. A vida é uma viagem e nunca sabemos a duração dela - tal como a tripulação do velho baleeiro. A viagem do Pequod acaba por ser longa e aventurosa,  como a vida dos velhos. Embora saibamos que o fim é inevitável, mantemos a esperança de que algo sobreviva - e o mesmo sucede com a tripulação. E isso acontecerá, deixando ao leitor uma porta aberta para a esperança ou para a eternidade.

Será Ahab a personagem central? Não sei e esse desconhecimento é, para mim, o grande fascínio deste livro. O velho capitão está presente mas distante como horizonte de um destino ameaçador. Ismael, o jovem narrador, é que está perto de nós e o seu desejo ingénuo de aventura protege-nos do terror de nos encontrarmos face a face com o homem da perna mutilada. Desde os primeiros capítulos, em que nos confessa as suas manias e nos leva à estalagem misteriosa onde se vê deitado na cama com um índio tatuado e aterrorizador, tornamo-nos cúmplices do seu embarque no Pequod e vamos acompanhá-lo até ao fim. Embarcamos com ele e não temos alternativa senão seguir pelos mares sem fim, participar nas perigosas caçadas às baleias, aprender as manhas da vida a bordo, conhecer os caracteres fascinantes do pequeno cosmo humano da tripulação.

É célebre o primeiro parágrafo de Moby Dick:


Tratem-me por Ismael. Há alguns anos — não interessa quando — achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qual­quer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas. É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação. Sempre que sinto um sabor a fel na boca; sempre que a minha alma se trans­forma num Novembro brumoso e húmido; sempre que dou por mim a parar diante de agências funerárias e a marchar na esteira dos funerais que cruzam o meu caminho; e, principalmente, quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso para não começar a arrancar os chapéus de todos os transeuntes que en­contro na rua — percebo então que chegou a altura de voltar para o mar, tão cedo quanto possível. É uma forma de fugir ao suicídio. On­de, com um gesto filosófico, Catão se lança sobre a espada, eu, tran­quilamente, meto-me a bordo. E não há nisto nada de extraordinário. Embora inconscientemente, quase todos os homens sentem, numa al­tura ou noutra da vida, a mesma atracção pelo oceano.


Aos "Viajantes" destas "Viagens com Palavras" deixo o convite: aventurem-se a ir com Ismael. Eu vou convosco.