quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

EPISÓDIO DO ADAMASTOR

15ª SESSÃO

28 FEVEREIRO 2013


OS LUSÍADAS
Canto V

Escultura de Júlio Vaz Júnior, 1927 - Alto de Santa Catarina, Lisboa



Recordemos o soneto de Bocage:



Adamastor cruel! De teus furores 
Quantas vezes me lembro horrorizado! 
Ó monstro! Quantas vezes tens tragado 
Do soberbo Oriente os domadores! 

Parece-me que entregue a vis traidores 
Estou vendo Sepúlveda afamado, 
Co'a esposa e co'os filhinhos abraçado, 
Qual Mavorte com Vénus e os Amores. 

Parece-me que vejo o triste esposo, 
Perdida a tenra prole e a bela dama, 
Às garras dos leões correr furioso. 

Bem te vingaste em nós do afoito Gama! 
Pelos nossos desastres és famoso. 
Maldito Adamastor! Maldita fama! 


Bocage, in 'Rimas', séc. XVIII


Passemos ao famoso episódio no Canto V, estr. 37- 60:

Estr. 37 

(...)
Quando ûa noite, estando descuidados,
Na cortadora proa vigiando,
Ûa nuvem, que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.

até

Estr. 60

Assi contava; e, cum medonho choro,
Súbito d'ante os olhos se apartou.
Defez-se a nuvem negra, e cum sonoro
Bramido, muito longe o mar soou.
(...)




Finalizemos com o poema de Fernando Pessoa:

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou trez vezes,
Voou trez vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou trez vezes,
Trez vezes rodou immundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-rei D. João Segundo!»

Trez vezes do leme as mãos ergueu,
Trez vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer trez vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quere o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
D' El-rei D. João Segundo!»


in: MENSAGEM, F. Pessoa, 1934






quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Filipa Pais - Praia das Lágrimas



Do álbum VOZ & GUITARRA, de Filipa Pais.
Letra: Carlos Tê
Música: Carlos Tê e Rui Veloso

Uma bonita canção que vem a propósito...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A PRAIA DAS LÁGRIMAS / O VELHO DO RESTELO




Partida de Belém





Velho do Restelo / Óleo de Columbano, 1904, Museu Militar de Lisboa


* * *

IMAGENS DA APRESENTAÇÃO DA SESSÃO DO DIA 7 FEVEREIRO:




















segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA







HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA, António José Saraiva e Óscar Lopes; 17ª ed, Porto Editora

Continua a ser uma obra indispensável para quem queira estudar a nossa Literatura, Apesar de ter sido publicada pela primeira vez nos anos 50 do séc. XX, tem vindo a ser revista e actualizada.

De sublinhar o rigor da abordagem, a contextualização histórica e as referências bibliográficas,  a propósito de cada época e cada autor.

Na Página 3 transcrevem-se algumas páginas sobre os LUSÍADAS.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

13ª e 14ª SESSÕES - 7 / 21 FEVEREIRO 2013








13ª SESSÃO - 7 Fev.


LUÍS DE CAMÕES

              . à maneira de um herói homérico?
              . o que se sabe da sua vida?
              . qual o contexto histórico em que viveu?

QUAL PREFERIMOS? O ÉPICO OU O LÍRICO?

              . «As armas e os barões assinalados...»
              . «Alma minha gentil que te partiste...»
              . «Estavas linda Inês posta em sossego...»



14ª SESSÃO - 21 Fev.

A GRANDE VIAGEM

              . A despedida na "praia das lágrimas"... (O velho do Restelo)
              . Os perigos... (O Adamastor / O Mostrengo )

A CHEGADA
                . « (...) achar em Portugal
                  este país que se perdeu de mar em mar»


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

BIBLIOTECA INFINITA - Um projecto enriquecedor


    http://alt1040.com/2008/11/la-biblioteca-infinita


Caros Viajantes das Palavras:

“Biblioteca Infinita é um Projecto ligado à promoção do livro e da leitura e em que se procura dar a conhecer aos mais novos os livros que fizeram as delícias dos seus avós, enfim, de livros que saídos do coração de uns, devem agora percorrer caminhos para chegarem ao coração dos mais novos.”

No início do ano propus-lhes a participação neste projecto que me pareceu muito interessante e no qual a Direcção da AUTITV está muito empenhada. Trata-se de uma parceria com a Fábrica das Histórias / Casa Jaime Umbelino, na qual ambas as instituições saem necessariamente enriquecidas, na sua missão de promover a leitura e o diálogo  inter-geracional.

O que se pretende? 
Peço-vos para reverem o texto informativo que distribuí na nossa 3ª sessão e que aqui transcrevo:



BIBLIOTECA INFINITA

Projeto d'A Fábrica das Histórias
           Memórias e notas sobre "O Meu Querido Livro"
Atenção:
      •       Procure na sua memória um livro que a/o tenha marcado na sua infância e
             juventude
       se não tem na sua posse o livro da sua infância, tente procurar numa biblioteca, peça a um amigo ou familiar, procure na Internet ou peça a quem possa fazê-lo por si (por exemplo peça aos seus filhos ou netos para o(a) ajudarem).
       se for totalmente impossível encontrar o seu querido livro enquanto objeto e se considerar que foi muito importante para si e quer partilhar este facto com as crianças de hoje, faça uma pesquisa sobre o livro para procurar responder aos conteúdos das alíneas B,C e D (se for possível) e preencha as alíneas E e F com as suas memórias;
A - Identificação do leitor (dono ou não) do Livro
O meu nome:
A minha morada:
B - Identificação do Livro
Título:
O(s) autor(es):
A editora:
O n2 da Edição:
O local da Edição:
O número de páginas:
A classificação da obra:
Aventura_____ Conto__ Biografia____ Ficção científica  Policial  Romance.
Banda desenhada____ Poesia___________ Outra. Qual   
O local onde se encontra atualmente:
C - Breve síntese sobre o autor do livro
O nome do autor:
O ano de nascimento (e morte se for o caso): A nacionalidade: Exemplos de outras obras:
Informação complementar que contribui para conhecer melhor o autor:
D - Identificação do conteúdo do livro
A minha breve síntese sobre o conteúdo do livro (personagens: quais são; o que fazem; qual é e como é a mais importante...) (local: onde se passa; como é o espaço/lugar...) (tempo: quando acontece...) ( enredo: a ideia principal do livro; outras ideias...) (...)
A identificação e a descrição das citações e/ou excertos mais relevantes para mim

E - "O Meu Querido Livro"
(O ano em que li o livro; a idade que eu tinha quando li o livro; o local onde eu residia quando li o livro; a classe
que eu frequentava; como tive acesso ao livro (oferecido, comprado, emprestado por um amigo, na biblioteca,...);
imagem que guardo do livro (formato, capa, tipo de folhas, colorido ou não, imagens...); o que aprendi com o livro;
quais as "marcas" que me deixou; quais são os meus sentimentos quando penso no livro; o que significa ainda
hoje na minha vida; porque é que o considero "O meu querido livro";..)
F - Desenhar as minhas imagens
As minhas 3 cenas/imagens do livro e as legendas

Obrigado por partilhar o seu querido livro e as suas memórias com os mais novos!
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Recordo:

1 - Este texto é apenas um guião facilitador, não é para ser seguido rigorosamente. Por exemplo: o ponto F destina-se, evidentemente, a quem tem facilidade ou gosto em desenhar...

2 - Este pequeno trabalho que aqui se pede deverá estar concluído em 7 de Março, dia em que mo podem entregar na sessão das Viagens com Palavras.

Vamos a isto?

Obrigado




12ª SESSÃO - 31 Janeiro 2013






  1. HOMERO NA CULTURA OCIDENTAL

                 A ODISSEIA é, com a Bíblia, a obra que mais influenciou a cultura ocidental
                 . Profunda influência na Grécia clássica (Séc. V e IV a C) –Platão, Aristóteles…
                 . Homero educou a Grécia: conceitos: o heroísmo, o carácter, a
                   perseverança,   a tenacidade, a astúcia, a lealdade…

                . A literatura romana tem início com a tradução da Odisseia para Latim.
                  ENEIDA, de Virgílio e METAMORFOSES, de Ovídio ...

                . Época Medieval( séc V a XV): Dante inspira-se nela para A DIVINA COMÉDIA (descida  
                  aos Infernos…)

                . Renascimento (Séc XV/XVI) – Redescoberta da ODISSEIA. OS LUSÌADAS…
                . Séc. seguintes…

2. LEITURA DE EXCERTOS DA ODISSEIA (Edição Livros Cotovia, 2003)













CANTO XVI
VERSOS 213 / 214


«…E Telémaco abraçou
o nobre pai, chorando e vertendo lágrimas… »














CANTO XVII
Verso 291


«…E um cão que ali jazia, arrebitou as orelhas. Era Argos, o cão do infeliz Ulisses…. »










CANTO XIX
versos 104 / 105


«Estrangeiro, esta pergunta te coloco eu em primeiro lugar.
Quem és e donde vens? Qual é a tua cidade? Quem são os teus pais?»





3. LEITURA DE EXCERTOS DO CONTO A PERFEIÇÃO de EÇA DE QUEIROZ
                 













«E ele, sentado num escabelo, estendia as mãos para as iguarias perfeitas… »




















«- Não te lamentes mais, desgraçado, nem te consumas, olhando o mar. »





(…) Mas então recordou que nem beijara a generosa e ilustre Calipso! Rápido, arremessando o manto, pulou através da espuma, correu pela areia e pousou um beijo sereno na fronte aureolada da Deusa. Ela segurou de leve o seu ombro robusto:
   - Quantos males te esperam, oh desgraçado! Antes ficasses, para toda a imortalidade, na minha Ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos...
    Ulisses recuou, com um brado magnífico:
    - Oh Deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!
    E, através da vaga, fugiu, trepou sofregamente à jangada, soltou a vela, fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as misérias - para a delícia das coisas imperfeitas!
                                                                                                              Eça de Queiroz, A Perfeição




quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

11ª SESSÃO - 24 Janeiro 2013


A partir de uma apresentação em Power Point:


  • Calendarização do 2º Período
               Janeiro (24 e 31) -----------------» ODISSEIA, de Homero  
    
               Fevereiro (7 e 21) ----------------» OS LUSÍADAS, de L. Camões

               Fevereiro (28) e Março (7) -----» PEREGRINAÇÃO, de Fernão Mendes Pinto

               Março (14) -------------------------» MOBY DICK, de Herman Melville
           
  • Localização temporal:



  • Primeira abordagem da ODISSEIA
              . A questão da autoria... Homero...
              . Articulação do poema com A ILÍADA na História da Grécia Antiga
              . A figura de Ulisses
              . O mito (a partir do poema Ulisses, da MENSAGEM de Fernando Pessoa); a mitologia
              . Os estudos sobre a Grécia Clássica: Maria Helena da Rocha Pereira e Frederico Lourenço
              . Referência a alguns textos complementares (Pág. 3 deste blogue)
   

               
ULISSES

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecunda-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

Fernando Pessoa
MENSAGEM

* * *
O MITO

Os antigos gregos (séc. VIII a.C.) procuraram explicação para o enigma do Universo.
“Como é que o mundo à nossa volta foi criado? Como é que a sua existência prossegue? Ao princípio são os mitos que respondem a estas interrogações.”
(J. Voilquin, Les Penseurs grecs avant Socrate)

 MITO: «Narrativa lendária ligada à tradição cultural de um povo que explica, através do apelo ao sobrenatural, ao misterioso, a origem do universo, o funcionamento da natureza e os valores básicos desse povo.» (Dicionário Breve da Filosofia, Alberto Antunes et all, Editorial Presença, Lisboa, 1995)
  Exemplo: o mito sebastianista…

* * *

ODISSEIAHistória do regresso de Odisseus (Ulisses) a Ítaca

       Em resumo:



* * * 

A partir da ODISSEIA: referência a dois textos da Literatura Portuguesa:

                           --» O conto A PERFEIÇÃO, de Eça de Queiroz
                           --» O livro de Teodolinda Gersão, A CIDADE DE ULISSES





terça-feira, 29 de janeiro de 2013

UM BOM LIVRO DE INICIAÇÃO






 É uma obra muito útil para abordar de forma rigorosa e bem sustentada um conjunto de livros básicos para a nossa cultura. Pode ler-se na contra-capa:


«BREVE APRESENTAÇÃO

A presente obra consubstancia a memória perene do projecto 10 Livros Que Mudaram o Mundo realizado na Biblioteca Muni­cipal de Oeiras.
Tendo por objectivo promover a ideia de que o livro, enquanto repositório do saber e da memória colectiva, pode ser um instru­mento de transformação do mundo, o projecto 10 Livros Que Mudaram o Mundo, foi concretizado através da realização, ao longo de 2004, de um conjunto de dez conferências que puderam contar com a colaboração de reputados especialistas nacionais.
A tarefa de selecção dos dez livros que iriam ser abordados e a indicação dos respectivos conferencistas foi atribuída a uma Comissão Científica, presidida pelo Sr. Vereador da Cultura e Juventude da Câmara Municipal de Oeiras (Jorge Barreto Xavier), que reuniu personalidades ligadas às principais instituições científicas, académicas e culturais do Concelho de Oeiras, para além de dois convidados a título individual. Dando sequência às escolhas da Comissão Científica foram realizadas dez confe­rências para abordar não dez mas onze livros:

Breve História do Tempo, de Stephen Hawking
Conferência por Carlos Fiolhais

O Príncipe, de Nicolau Maquiavel
Conferência por Adriano Moreira

A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud
Conferência por Carlos Amaral Dias

Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels
Conferência por José Pacheco Pereira

Odisseia, de Homero
Conferência por Frederico Lourenço

A Origem das Espécies, de Charles Darwin
Conferência por Luís Vicente

A República, de Platão
Conferência por José Trindade Santos

A Riqueza das Nações, de Adam Smith
Conferência por José Luis Cardoso

0 Erro de Descartes, de António Damásio
Conferência por A. Gonçalves Ferreira

Bíblia e Alcorão
Conferência por Armindo dos Santos Vaz, David Munir e Esther Mucznik

Todas as sessões contaram com uma participação muito signi­ficativa e entusiasta por parte do público que, para além de assistir às conferências, pode usufruir dos materiais de apoio produzidos para o efeito (Guiões de Leitura e Dossier do Professor). A presente obra reúne precisamente os textos produzidos pelos conferencistas e os materiais de apoio. Assim sendo, torna-se possível que todos aqueles que assistiram as sessões possam agora usufruir da versão completa das conferências e dos guiões.
Gostava de terminar deixando aqui um conjunto de agradeci­mentos. Começo por um agradecimento à Fundação Calouste Gulbenkian. 0 projecto 10 Livros Que Mudaram o Mundo foi candidatado pela Câmara Municipal de Oeiras ao Programa de Apoio a Projectos de Promoção da Leitura em Bibliotecas Públicas da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo sido aprovado e apoiado financeiramente. Este apoio financeiro foi decisivo para a elevada qualidade com que o projecto foi concretizado.



Gostava também de agradecer a todos os que estiveram direc­tamente envolvidos no projecto. Aos membros da Comissão Científica: Aline Bettencourt (Fundação Marquês de Pombal); Fernando Pinto do Amaral (Faculdade de Letras de Lisboa); Mafalda Lopes da Costa (Directora da Revista Ler); Paulo Costa (Reitor da Universidade Atlântica); Sérgio Gulbenkian (Instituto Gulbenkian de Ciência).
Aos conferencistas: Carlos Fiolhais, Adriano Moreira, Carlos Amaral Dias, José Pacheco Pereira, Frederico Lourenço, Luís Vicente, José Trindade Santos, José Luís Cardoso, António Gonçalves Ferreira, Armindo Vaz, David Munir e Esther Mucznik.»
(Texto da Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Teresa Pais Zambujo)

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Para o que nos interessa agora, chamo sobretudo a atenção para a conferência sobre a Odisseia, proferida por Frederico Lourenço, bem como para o dossier inserto na segunda parte do livro, com diversos textos, websites e bibliografia sobre Homero e as suas obras.

Ver um pequeno excerto na PÁG. 3


sábado, 26 de janeiro de 2013

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

PARA LER







Novos textos de apoio na Página 3.

Duas sessões são insuficientes para abordarmos um livro como a ODISSEIA. Por isso sugiro que os viajantes das palavras vão fazendo leituras complementares como as que aqui deixei.
Obrigado.








domingo, 20 de janeiro de 2013

MUDANÇA DE CARRUAGEM...


Imagem: http://www.viaarte.org/2011/02/salao-do-automovel.html


                                  * * *

Ei, viajantes: repararam na mudança de cor do blogue? É o que vai acontecer em cada mudança de livro.

Depois de 10 sessões a viajarmos no livro de A. Garrett, é tempo de mudarmos de carruagem.
Vamos entrar nos livros que propus no início do ano para o 2º Período, a saber:

Janeiro ---------» dias 24 e 31: ODISSEIA , de Homero

Fevereiro ------» dias 7 e 21: OS LUSÍADAS, de Luís de Camões

      "       -------» dia 28: PEREGRINAÇÃO, de Fernão Mendes Pinto

Março    --------» dia 7: PEREGRINAÇÃO, de F M Pinto

      "      ---------» dia 14: MOBY DICK, de Herman Melville ( a concluir na 1ª sessão do 3º Período, em
                            4 de Abril)


São abordagens necessariamente concisas, breves apontamentos sobre livros que valem, cada um por si, uma literatura. Motivação para novas leituras do que já se conhece mas esqueceu; ou para  se pegar num grande clássico e lê-lo à luz da nossa experiência de vida.

A completar as sessões ao vivo na AUTITV, irei deixando aqui alguns textos complementares, simples propostas de leitura para apoio e enriquecimento. Podem ser encontrados na PÁGINA 3 do blogue.

Boa viagem!

10ª SESSÃO - 17 JANEIRO 2013


VISITA GUIADA


. Viagem a Santarém pelo percurso das VIAGENS NA MINHA TERRA ( Vila Nova da Rainha, Azambuja, Cartaxo e Vale de Santarém). Ruas de Santarém por onde Garrett andou...

. Visita à casa da Alcáçova - casa de Passos Manuel, agora Fundação Passos Canavarro - e Portas do Sol. Quarto onde Garrett dormiu, varanda de onde avistou o Tejo...





Fotos do blogue 

* * * 

. Alpiarça, (vila onde Passos Manuel também teve uma Quinta) e onde se situa a Casa dos Patudos - Museu de Alpiarça, do grande vulto republicano José Relvas.



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No final da visita guiada, leitura de


TEXTO DE RAMALHO ORTIGÃO SOBRE ALMEIDA GARRETT


«A influência desta grande personalidade essencialmente artística, foi enorme sobre a sociedade portuguesa desde 1820 até 1840. O tempo decorrido, a perspectiva interposta deixa-nos bem apreciar a decisiva acção de tal homem sobre a mentalidade do seu tempo.
Portugal saía apenas dos domínios esmagadores de um re gime despótico e clerical. Vinha embrutecido e estúpido. Os I primeiros clarões da liberdade feriam-lhe a vista e deslum­bravam-no dolorosamente. Vinha de rezar a via sacra pelos claustros das igrejas, vinha de acompanhar os autos-de-fé e as procissões de penitência, vestido de farricoco, arrastando grilhões tenebrosos e mastigando ossos de defunto.
Desde Camões para cá, a arte não tornara a achar uma só nota alegre, penetrante, humana. Os poetas são beatos lacri­mosos ou biltres debochados e sujos. Uma profunda corrup­ção, imunda e hipócrita, de confessionário e de alcova de freira, revolve os costumes da corte e da nobreza atolados na gula fradesca das jeropigas e das marmeladas de Odivelas. O povo tem medo de tudo, e reza; tem medo do rei, tem medo dos corregedores, tem medo dos capitães-mores, tem medo das bruxas e tem medo do diabo. A mulher pertence a três categorias: a freira, a besta de carga e a emissária do de­mónio, encarregada por ele de tentar as almas, segundo os processos explicados pelos Santos Padres. Em 1830, duzen­tos anos de tristeza, de cobardia, de traição, de crápula, pe­sam ainda sobre as nossas almas. O cheiro da pólvora, que se principia a sentir, atenua apenas, mas não destrói o cheiro do bafio de sacristia que se nos pregou à pele.
É no meio dessa sociedade, desbravada apenas da servidão católica-monárquica, devota ainda, mal-humorada e casmur­ra, que Garrett aparece, mensageiro do novo espírito euro­peu.
Foi ele que, de chapéu branco, calças de quadrados, gra­vata encarnada, monóculo no olho, um charuto nos beiços e uma chibata em punho, vergastou as orelhas do Velho Mun­do Português e o obrigou a abrir a primeira garrafa de cham­panhe.
Nós não éramos todos senão uns pobres velhotes; uns gin­jas, uns xexés. Foi ele o primeiro que, por meio dos seus li­vros, nos deitou nos copos e nos fez beber o vinho da moci­dade. E foi depois de reconfortados por esse generoso licor de poesia, que nós aprendemos a estimar a beleza, a amar a |liberdade, a compreender as artes e a querer o progresso.»

(in: FARPAS ESCOLHIDAS, Ramalho Ortigão, selecção e introdução por Ernesto Rodrigues, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, s/d, s/l)