segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

7ª SESSÃO - 6 DEZEMBRO





 CARACTERÍSTICAS DO ROMANTISMO

Exploração do quadro iniciado na sessão anterior.
Leitura de excertos dos primeiros cap. das VIAGENS. Ficámos no cap. V
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Bibliografia:

História da Literatura Portuguesa, A. J. Saraiva e Óscar Lopes; Porto Editora, 16ª ed.
Dicionário da Literatura Portuguesa, Org. António Manuel Machado; Edit. Presença, 1ª ed, 1996


6ª SESSÃO - 29 NOVEMBRO

ALMEIDA GARRETT E O SEU TEMPO



«Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como S. Petersburgo — entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.
Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minhapena: pobre esoberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho.
Vou nada menos que a Santarém; e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.» ( Início das VIAGENS NA MINHA TERRA )






ALMEIDA GARRETT

PORTUGAL

        1799: Nasce no Porto.
        Filho de família burguesa(funcionários e “brasileiros”)
        Estadas em quintas da família, contacto com a cultura popular de velhas criadas, origem do “Romanceiro”
        1809 -  Foge aos franceses, para a ilha Terceira (Açores) com os pais.
        Educação escolar clerical, princípios clássicos, com tio paterno, futuro bispo de Angra.
        Com 15 anos: sermão numa festa religiosa, na Graciosa.
        1816 - Adolescente virado para aventuras amorosas. Tio aconselha Coimbra e curso de Direito. Garrett em Coimbra
        Coimbra: estudos e adesão às ideias liberais. Primeiros passos literários: poesia e teatro.
        Lisboa. Chefe da repartição da instrução. Processado por ofensas à moral pelo poema Retrato de Vénus.
        Casa com Luísa Midosi, uma adolescente de 15 anos.
        Primeiro exílio em Inglaterra devido aos confrontos entre Liberais e Absolutistas. Contacta com nova corrente literária, o Romantismo, em oposição ao Classicismo.
        Publicação dos grandes poemas  Camões (1824) e D. Branca (1826), introdutores do Romantismo em Portugal
        Regressa a Portugal, aderindo à CARTA.
        1828: novo exílio, em Inglaterra. Privações e fome.




        1830 – Publica PORTUGAL NA BALANÇA DA EUROPA






        Acompanha D. Pedro como soldado raso e inicia O ARCO DE SANTANA durante o cerco do Porto.
        Ligação com Adelaide  Pastor e nascimento da filha, ilegítima pela impossibilidade de  dissolver o casamento com Luísa Midosi. Drama pessoal, transposto para o Frei Luís de Sousa.
        Missão diplomática em Bruxelas.
        Encarregado de um plano de criação de um Teatro Nacional. Várias peças; 1843 : Frei Luís de Sousa.
        1837: inicia brilhante carreira parlamentar

        1843 – Começa a publicação em folhetins das VIAGENS NA MINHA TERRA (Revista Universal Lisbionense), relato de viagem a Santarém, a casa de Passos Manuel
        1844 – Conhece a Viscondessa da Luz.
        1845 – FOLHAS CAÍDAS, obra-prima da poesia portuguesa do séc XIX
        Nomeado Visconde e par do reino ( para garantir subsistência à filha)
        Ministro dos Negócios Estrangeiros por alguns meses
        9 de Dezembro de 1854: morre em Lisboa, com 55 anos.
        Jaz no Panteão Nacional,  Igreja de Santa Engrácia em Lisboa.

        1799: D. Maria I enlouquece, regência do Infante D. João (Rei  D. João VI, em 1816, quando morre a rainha mãe )
        1807 – Corte portuguesa parte para o Brasil. 1ª invasão francesa (Junot). Roliça e Vimeiro. Convenção de Sintra.
        1809 - 2ª invasão (Soult), Porto e Norte de Portugal.
        1810 – 3ª invasão(Massena) Buçaco. Linhas de Torres Vedras.
        1816 – No Brasil: morre D. Maria I. Sucede D. João VI.
        1817 – Gen. Gomes Freire de Andrade é enforcado (Mártires da Pátria).
        1820 – Revolução liberal.
        Introdução em Portugal da máquina a vapor.
        1822 – Independência do Brasil (grito do Ipiranga…). Primeira Constituição portuguesa.
        Regime constitucionalista vs. Regime absolutista




        1823/24: reacção absolutista com D. Miguel (Vila-Francada e Abrilada). D. Miguel exilado por D. João VI para Viena.
        1824: fundação da Fábrica da Vista Alegre, em Ílhavo, primeiro com vidro e em 1830 com porcelana.
        1826 – Morte de D. João VI. Regência da filha Infanta D. Isabel Maria.
        D. Pedro I outorga a CARTA CONSTITUCIONAL e estabelece uma base de governo que se mostrou irrealista: irmão D. Miguel casaria com D. Maria da Glória(filha de D. Pedro) e seria regente na fidelidade à CARTA.
        1828 - D. Miguel regressa, jura a CARTA mas logo a seguir abjura. Assume-se rei absolutista.
        Confrontos entre Liberais e Absolutistas.
        1832 – D. Pedro abdica no Brasil para o filho D. Pedro de Alcântara e organiza a resistência liberal. Desembarque dos Liberais no Mindelo e ocupam o Porto. Início da guerra civil que vai até 1834.
        Legislação liberal de Mouzinho da Silveira, fim das leis do Antigo Regime.
        1834 – Convenção de Évora-Monte, exílio de D. Miguel.
        Extinção das ordens religiosas masculinas e nacionalização dos seus bens (lei de Joaquim António de Aguiar)
        Morte de D. Pedro IV ( com 36 anos), sobe ao trono a filha, D. Maria II.



        1836 – Setembrismo, regresso ao Vintismo (Constituição de 1838). Governo de Manuel da Silva Passos (Passos Manuel), amigo de A. Garrett


        1842 -  Cabralismo, governo ditatorial

        1851 - Governo constitucional regenerador

        Obras públicas: estradas e caminhos de ferro
        1852: aparecem dois partidos (Histórico e Regenerador), início do chamado “rotativismo”.

        1853: morre D. Maria II




CLASSISSISMO
ROMANTISMO


        Associado ao regime absoluto (poder de origem divina, autoritarismo)

        Predomínio da razão

        Convencionalismo (o aristocrático, o nobre, o padrão social…)

        Geral, universal

        Obediência aos modelos classicos da antiga Grécia e Roma

        O objectivo, o impessoal, as paisagens claras, a natureza amena





        Associado ao regime constitucional (poder vem do povo, divisão dos poderes:
         legislativo, executivo, judicial)

        Predomínio da imaginação, sensibilidade,   
          sentimento

        Afirmação da liberdade, da diferença, do popular genuíno, das tradições do povo

        Particular, individual

        Ruptura com os modelos clássicos, fusão dos géneros literários, liberdade criativa

        O subjectivo, o pessoal, as paisagens “carregadas”, as ruínas…


5ª SESSÃO - 22 NOVEMBRO

XAVIER DE MAISTRE E ALMEIDA GARRETT


Xavier de Maistre está presente no início das VIAGENS de A. Garrett.
Quem foi X. de Maistre?
Pode ver-se aqui (http://pt.wikipedia.org/wiki/Xavier_de_Maistre) ou na introdução do seu livro editado pela &ETC


Irmão do filósofo Joseph de Maistre, Xavier de Maistre (…) é o tipo por excelência do diletante, pouco se preocupando com coi­sas sérias e com a posteridade, preguiçando durante 15 anos entre a Viagem e o Leproso. Publicada sem o nome do autor, a Viagem apre­senta-se como fruto de 42 dias de detenção; dará origem a um "re­make" de interesse menor: Expedição Nocturna à Roda do Meu Quarto.

À voga das narrativas de aventuras e de viagens, De Maistre opõe a imobilidade mais completa, graças à qual pode escapar a con­tingências e dar livre curso à imaginação; generaliza o desarranjo paródico, a viragem. "Enquanto eles descrevem o mundo, vou eu des­crever o meu quarto", será esta a sua divisa. É, portanto, ao regres­sar à liberdade que ele volta a entrar no cativeiro. O jogo com o leitor é constante, de inversão em contra-marcha, de digressão em digressão, de anti-romance em anti-viagem.
Para além daquilo que compartilha com a narrativa paródica, po­demos ver perfilar-se na Viagem a dupla renovação que constitui a re­volução romântica: o advento do eu e a explosão dos géneros.
O conde Xavier de Maistre oferece-se a nós como um daqueles ho­mens cuja descoberta nos consola de muitas das desilusões em litera­tura, reconciliando-nos docemente com a natureza humana... Havería­mos de tirar prazer e proveito de mais do que um dos seus juízos ingénuos e subtis.
(Sainte-Beuve (crítico literário francês, 1804-1869)

in: Viagem à Roda Do Meu Quarto, ed. &ETC, Lisboa, 2002






Leitura do primeiro capítulo de VIAGEM À RODA DO MEU QUARTO:



CAPÍTULO I

Como é glorioso iniciar uma nova carreira, e aparecer subita­mente no mundo culto, com um livro de descobertas na mão, tal um cometa inesperado que fulge no espaço!
Não, não mais guardarei o meu livro in petto; ei-lo, senhores, leiam-no. Iniciei e terminei uma viagem de quarenta e dois dias à roda do meu quarto. As observações interessantes que recolhi e o prazer contínuo que experimentei ao longo do caminho fizeram com que de­sejasse torná-la pública; a certeza de ser útil conduziu-me a esta deci­são. Sente o meu coração uma satisfação inexprimível quando penso no número infinito de infelizes a quem ofereço um meio garantido contra o tédio e um alívio para os males de que sofrem. O prazer que se encontra ao viajar no próprio quarto está ao abrigo da inquieta in­veja dos homens; é independente da fortuna.
Terá uma pessoa de ser, efectivamente, bastante infeliz, assaz abandonada, para não ter um reduto onde possa refugiar-se e escon­der-se de toda a gente?
Eis todos os condimentos da viagem.
Estou certo de que qualquer homem sensato adoptará o meu sis­tema, seja qual for o seu carácter, qualquer que seja o seu temperamento; avaro ou pródigo, rico ou pobre, jovem ou velho, nascido na zona tórrida ou perto do pólo, pode viajar como eu; enfim, na imensa família dos homens que pululam sobre a superfície da terra, não existe um só — um só que seja (entenda-se, daqueles que habitam quartos) — que possa, depois de ter lido este livro, recusar-se a aprovar a nova maneira de viajar que introduzo no mundo.

Xavier de Maistre
Viagem à Roda do Meu Quarto,
Ed. &ETC, Lisboa, 2002


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4ª SESSÃO - 15 NOVEMBRO


A descoberta dos livros... As bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian...


[O meu primeiro contacto com a obra de Aquilino Ribeiro foi por conselho de António José Forte que dirigia a carrinha da Gulbenkian que ia à minha terra,Alpiarça, por volta de 1961/62.]






Uma viagem atribulada pelas serranias da Beira Alta: leituras do Cap. 9 de O MALHADINHAS, de Aquilino Ribeiro.



Excerto:


(…)
Os lobos formaram com todo o descaro à nossa banda. Nem uma patrulha. O luar era mortiço, mas eu bem lhes via o lombo saraivado e pelo jogo das pernas como se iam mandando connosco a compasso.
Quando anoiteceu de todo, os maganos, sempre leva que leva à nossa mão, chegaram-se para mais perto. Eu quase os podia chuçar com o estribo; mas que ganhava? Todo o meu zelo era levar os olhos neles que já se me afigurava tolherem-se não sei por que resto de cobardia de nos saltar. 0 frade vinha atrás de mim a bater os queixais de medo.
— Passe para a minha banda — disse-lhe eu, que já me pare­cera ver um dos moinantes, o mais alentado, esticar os jarretes, com mentes de pular à garupa do burrico.
O frade lá se ajeitou à esquerda, tão cosido contra mim que cheguei a supor que animal e frade queriam montar no machito. Ouvi-lhe gemer:
— É hoje o nosso último dia!
— Vossa Paternidade não traz nada... navalha, ferro, pau que seja?
— Nada.
— Mas que é isso que há bocado vinha a tilintar nos alforges?
— É um turíbulo; é o turíbulo da igreja das Arnas, que trago para consertar.
— Dê-mo cá...
— Hem?
— Dê-mo cá... Depressa, homem!
O frade passou-me o turíbulo para as mãos, atravessei a faca nos dentes, e aí me pus a tocar ferrinhos, a bimbalhar, a fazer uma matinada que nem cambalheiras arrastadas por um cavalo! E — querem Vossorias saber? — os lobos meteram o rabo entre pernas e desarvoraram. Certo, assim Deus me salve!
(…)
Aquilino Ribeiro,
O MALHADINHAS
Bertrand Editora, col 11/17, Maia, 2011


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Diálogo sobre o projecto da Fábrica das Histórias, "MEUS QUERIDOS LIVROS". Distribuição de um texto fotocopiado com os objectivos e a calendarização do projecto.

3ª SESSÃO - 8 NOVEMBRO


Como se viajava no séc. XIX em Portugal?
Cruzamento de referências textuais...



VIAGENS NA MINHA TERRA

Às vezes, passo horas inteiras 
Olhos fitos nestas braseiras, 
Sonhando o tempo que lá vai; 
E jornadeio em fantasia
Essas jornadas que eu fazia
Ao velho Douro, mais meu Pai.

Que pitoresca era a jornada!
Logo, ao subir da madrugada,
Prontos os dois para partir:
- Adeus! adeus! é curta a ausência,         
Adeus! - rodava a diligência
Com campainhas a tinir!

E, dia e noite, aurora a aurora,
Por essa doida terra fora,
Cheia de Cor, de Luz, de Som,
Habituado à minha alcova
Em tudo eu via coisa nova,
Que bom era, meu Deus! que bom!

Moinhos ao vento! Eiras! Solares!
Antepassados! Rios! Luares!
Tudo isso eu guardo, aqui ficou:
Ó paisagem etérea e doce,
Depois do Ventre que me trouxe
A ti devo eu tudo que sou!

No arame oscilante do Fio,
Amavam (era o mês do cio)
Lavandiscas e tentilhões...
Águas do rio vão passando
Muito mansinhas, mas, chegando
Ao Mar, transformam-se em leões!

Ao Sol, fulgura o Oiro dos milhos!
Os lavradores mai-los filhos
A terra estrumam, e depois
Os bois atrelam ao arado
E ouve-se além, no descampado
Num ímpeto, aos berros: - Eh! bois!

E, enquanto a velha mala-posta,
A custo vai subindo a encosta
Em mira ao lar dos meus Avós,
Os aldeãos, de longe, alerta,
Olham pasmados, boca aberta...
A gente segue e deixa-os sós.

Que pena faz ver os que ficam!
Pobres, humildes, não implicam,
Tiram com respeito o chapéu;
Outros, passando a nosso lado,
Diziam: "Deus seja louvado!"
"Louvado sejal" dizia eu.

E, meiga, tombava a tardinha... 
No chão, jogando a vermelhinha, 
Outros vejo a discutir.
Carpiam, místicas, as fontes... 
Água fria de Trás-os-Montes 
Que faz sede só de se ouvir!

E, na subida de Novelas,
O rubro e gordo Cabanelas
Dava-me as guias para a mão:
Isso... queriam os cavalos!
Que eu não podia chicoteá-los...
Era uma dor de coração…

Depois, cansados da viagem,
Repousávamos na estalagem
(Que era em Casais, mesmo ao dobrar... )
Vinha a Srª Ana das Dores
"Que hão de querer os meus Senhores?
Há pão e carne para assar..."




Oh! ingénuas mesas, honradas!
Toalhas brancas, marmeladas,
Vinho virgem no copo a rir...
O cuco da sala, cantando. . .
(Mas o Cabanelas, entrando,
Vendo a hora: "É preciso partir").

Caía a noite. Eu ia fora,
Vendo uma estrela que lá mora,
No Firmamento português:
E ela traçava-me o meu fado
"Serás Poeta e desgraçado!"
Assim se disse, assim se fez.

Meu pobre Infante, em que cismavas,
Por que é que os olhos profundavas
No Céu sem-par do teu País?
Ias, talvez, moço troveiro,
A cismar num amor primeiro:
Por primeiro, logo infeliz...

E o carro ia aos solavancos.
Os passageiros, todos brancos,
Ressonavam nos seus gabões:
E eu ia alerta, olhando a estrada,
Que em certo sítio, na Trovoada,
Costumavam sair ladrões.

Ladrões! Ó sonho! Ó maravilha!
Fazer parte duma quadrilha,
Rondar, à Lua, entre pinhais!
Ser Capitão! trazer pistolas,
Mas não roubando, - dando esmolas
Dependuradas dos punhais ...

E a mala-posta ia indo, ia indo.
o luar, cada vez mais lindo,
Caía em lágrimas, - e, enfim,
Tão pontual, às onze e meia,
Entrava, soberba, na aldeia
Cheia de guizos, tlim, tlim, tlim!

Lá vejo ainda a nossa Casa
Toda de lume, cor de brasa,
Altiva, entre árvores, tão só!
Lá se abrem os portões gradeados,
Lá vêm com velas os criados,
Lá vem, sorrindo, a minha Avó.

E então, Jesus! quantos abraços!
- Qu'é dos teus olhos, dos teus braços,
Valha-me Deus! como ele vem!
E admirada, com as mãos juntas,
Toda me enchia de perguntas,
Como se eu viesse de Belém!

- E os teus estudos, tens-me andado?
Tomara eu ver-te formado!
Livre de Coimbra, minha flor!
Mas vens tão magro, tão sumido...
Trazes tu no peito escondido,
E que eu não saiba, algum amor?

No entanto entrava no meu quarto:
Tudo tão bom, tudo tão farto!
Que leito aquele! e a água, Jesus!
E os lençóis! rico cheiro a linho!
- Vá, dorme, que vens cansadinho.
Não adormeças com a luz!

E eu deitava-me, mudo e triste.
(- Reza também o Terço, ouviste?)
Versos, bailando dentro em mim...
Não tinha tempo de ir na sala,
De novo: - Apaga a luz! - Que rala!
Descansa, minha Avó, que sim!

Ora, às ocultas, eu trazia
No seio, um livro e lia, lia,
Garrett da minha paixão...
Daí a pouco a mesma reza:
- Não vás dormir de luz acesa,
Apaga a luz! ... (E eu ainda... não!)

E continuava, lendo, lendo...
O dia vinha já rompendo,
De novo: - Já dormes, diz?
- Bff!... e dormia com a idéia
Naquela tia Dorotéia,
De que fala Júlio Dinis.

Ó Portugal da minha infância,
Não sei que é, amo-te a distância,
Amo-te mais, quando estou só...
Qual de vós não teve na Vida
Uma jornada parecida,
Ou assim, como eu, uma Avó?

[António Nobre
Paris, 1892]


* * * 

A DEITA


«O quarto de Henrique era arranjado com simplicidade. Um alto leito de almofadas na cabeceira e rodapé de chita, tão alto que se não dispensava o auxílio de cadeira para trepar acima dele, uma cómoda com um pequeno espelho, um baú, um lavatório e duas cadeiras mais, constituíam a mobília toda.
Henrique de Souselas sentiu a falta de mil pequenos objectos de toucador, a que estava habituado. Aquele estritamente necessário não lhe prometia grandes confortos.
Deitou-se. A roupa da cama era de linho alvíssimo e respirava um asseio e frescura convidativos: os travesseiros, de largos folhos engomados, possuíam ma moleza agradável às faces; o colchão de penas abatia-se suavemente sob o peso do corpo fatigado. Henrique conchegou a roupa a si; à falta de velador, pousou o castiçal no travesseiro, e, abrindo um livro que trouxera de Lisboa, pôs-se a ler, para obedecer a um hábito adquirido.
Não teria ainda lido um quarto de página, quando ouviu a voz da tia Doroteia, que lhe dizia de fora da porta:
— Ó menino, tu já te deitaste?
— Já, sim, tia Doroteia.
— Olha se tens cautela com a luz. Eu tenho um medo de fogos!
— Esteja descansada, tia. Eu apago já.
— Então será melhor. S. Marçal nos acuda. E afastou-se, rezando ao santo.
Henrique continuou a ler.
Daí a pouco a mesma voz:
— Tu já dormes, Henriquinho?
— Não, tia, ainda não durmo.
— Olha que não vás adormecer sem apagar a luz. Eu tenho um medo de fogos! Não descanso enquanto não vejo tudo apagado em casa.
Henrique perdeu a paciência.
— Pois pode sossegar, olhe.
E apagou a vela, meio zangado.
— Fizeste bem, fizeste bem; isto já é tarde, e é melhor fazer por dormir. Então, muito boas noites.
— Muito boas noites — respondeu Henrique quase amuado; e ajeitando--se na cama, dizia consigo: — E esta! Já vejo que nem ler me é permitido aqui. Olhem que vida me espera! É isto o que me devia curar? Que fatalidade!
Dentro em pouco os dois felpudos cobertores de papa, únicos que con­servava dos cinco primitivos, começaram a fazer o seu efeito, insinuando nos membros cansados da jornada um agradável calor. Convidavam ao sono o som da água num tanque que ficava por debaixo das janelas do quarto e as gotas da chuva, que dos beirais do telhado caíam compassadas na tábua do peitoril.
A noite sossegara. De quando em quando apenas algumas lufadas de vento, já menos impetuosas, faziam bater as vidraças.
Eram como estes estados, que sucedem a um choro aberto. Correm ainda algumas lágrimas nas faces, mas já não brotam novas dos olhos: saem ainda do peito os soluços, porém mais espaçados; dentro em pouco será completa a serenidade.
Henrique começou a experimentar uma languidez, um delicioso bem-estar naquele confortável leito e no meio daquele sossego; fecharam-se-lhe enfraque­cidos os olhos, e deslizou suave, insensivelmente, no mais profundo, tranquilo e restaurador sono, que, havia muito tempo, tinha dormido.»


A MORGADINHA DOS CANAVIAIS
Júlio Dinis
Cap. I







domingo, 9 de dezembro de 2012

2ª SESSÃO - 25 Outubro


O espírito de quem viaja...





ENTÃO… BOA VIAGEM!

 Qual é a essência de uma viagem? Mais do que o percurso ou o ponto de chegada, o que conta é o espírito de quem a faz. Ou seja: o famoso “sei que não vou por aí!”, de José Régio, traduzido por “o tino é mais importante que o destino”!
Seja a “VIAGEM AO FIM DA NOITE” – isto é, ao mais recôndito da alma humana -, ou a “VIAGEM À RODA DO MEU QUARTO” – divertido e lúcido passatempo de um prisioneiro no século XVIII, - é na cabeça dos viajantes que lemos a geografia do caminho andado. “VIAGENS NA MINHA TERRA” - Tejo acima, até Vila Nova da Rainha, e um passeio de mula da Azambuja até Santarém – pouco seria se não fosse a pena do escritor brilhante a transfigurar a paisagem. “VIAGEM AO CENTRO DA TERRA” - mergulho no mais delirante e verosímil mundo imaginário – continua a incendiar as nossas memórias de leitores. “OS LUSÍADAS” – essa viagem de todos nós ao oriente do nosso oriente – é um livro aborrecido apenas para quem se deixou embotar por novelas mal amanhadas. Valha-nos alguém da nova geração para nos propor “UMA VIAGEM À INDIA” – visão irónica e desencantada de quem perdeu caravelas e navega agora na vulgaridade de um continente sem horizontes.
Livros para abalar daqui, ir embora, dar de frosques…
Então… Boa viagem! 

JMD



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CITAÇÔES

(…)
Viajar es marcharse de casa,
es vestirse de loco,
diciendo todo y nada
con una postal.
Es dormir en otra cama,
sentir que el tiempo es corto.
Viajar es regresar!

Gabriel García Márquez

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"O que muito viaja aumenta a sua sagacidade.
Muita coisa vi nas minhas viagens, o meu conhecimento é maior do que as minhas palavras.
(Eclesiástico 34,10-11)

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"Diz-se que é preciso viajar para ver o mundo. Por vezes, penso que, se estiveres quieto num único sítio e com os olhos bem abertos, verás tudo o que podes controlar.” 
(Paul Auster)


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Cap. I
Ao cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genuíno Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de Primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem. (A Morgadinha dos Canaviais, Júlio Dinis)

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Leitura de um trecho d' A Morgadinha dos Canaviais:

A MORGADINHA DOS CANAVIAIS
Júlio Dinis
Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, cap. I

«O leitor provavelmente há-de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto que o grato e quase voluptuoso alvoroço com que se concebe e planiza qual­quer projecto de viagem, assim como a suave recordação que dela guardamos depois, são coisas de incomparavelmente muito maiores delícias, do que as impressões experimentadas no próprio momento de nos vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e mormente nas clássicas estala­gens das nossas províncias. As pequenas impertinências, em que se não pensa antes, que se esquecem depois, ou que a saudade consegue dourar até e poetizar a seu modo; esses microscópicos martírios, que de longe não avultam, actuam-nos, na ocasião, a ponto de nos inabilitar para o gozo do que é realmente belo. A dureza do colchão em que se dorme, do albardão ou selim sobre que se monta, o tempero ou destempero do heteróclito cozinhado com que se enche o estômago, a lama que nos incrusta até os cabelos, o pó que se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o sol que nos congestiona o cérebro, tudo então nos desafina o espírito, que trazíamos na tensão necessária para vibrar perante as maravilhas da natureza ou da arte.
Só pelo preço de muitas jornadas se compra o hábito de ficar impassível no meio dos episódios destas pequenas odisseias, que atormentam e exaurem o ânimo dos Ulisses novatos; mas ai, quando se adquire esse hábito, também nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as comoções do belo.
Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos entusiasmo; analisa--se mais e melhor; porém a própria análise é a prova de que se sente menos.
Onde domina o sentimento e a imaginação, mal têm cabida a paciência e fleuma, necessárias aos processos analíticos. O homem positivo e frio recolhe de qualquer excursão à pátria com a carteira cheia de apontamentos; o entu­siasta e poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu mais.»